Polícia
27/07/2010 - 22h44
Túnel do desprezo
(*) João Gabriel Bressan
Eu imagino como deve ser cruel para a atriz Cissa Guimarães a rotineira repercussão em torno da morte do filho dela. Não sou pai, mas, às vezes, a gente que nao é, tenta se passar no lugar de quem é. E só de pensar numa perda dessas, vem os calafrios, medo, a tortura da saudade.
Mais angustiante do que ver a vida de um filho interrompida, deve ser assistir as trocas de acusações e as ilegalidades que ocorreram dentro daquele túnel INTERDITADO PARA VEÍCULOS. E Rafael, realmente estava numa noite sem sorte.
Primeiro, por ser atropelado, num lugar que nem ele, nem nós, poderíamos supor que haveria essa possibilidade. Segundo que, quem o atropelou não prestou socorro. Terceiro que, o socorro não veio nem da polícia, a primeira a chegar no túnel. Quarto, que se a polícia fosse realmente polícia, teria ficado ali - até a ambulância chegar, ter detido o atropelador e encaminhado toda a história pra delegacia, como é o correto fazer. Mas não. A polícia, pediu dinheiro pra abafar tudo, como relatam testemunhas. E quem ali deveria ter a consciência de que errou, de quem matou, embarcou na onda de dar um dinheirinho pra história ser esquecida. Ficou irresistível.
É difícil a gente saber quem errou mais: a polícia que cobrou a grana ou o pai do atropelador que pagou uma parte e ainda encaminhou o carro para uma oficina, para que a mecânica desse um jeito de apagar as consequências daquela noite bizarra. Isso ilustra, de maneira bem escancarada, a realidade medonha que invade as ruas. Temos duas instituições em crise: O Estado, na sua incompetência e insensibilidade; e a família, incapaz de lidar com a dor do próximo. Naquilo que beira ao egoísmo, ao individualismo.
Eu me pergunto, como o pai do rapaz que atropelou Rafael, dormiu naquela madrugada. Se ele sonhou, se ele descansou. Se ao menos se questinou sobre a aflição que o pai e a mãe do jovem deixado no asfalto, estariam vivendo naquela noite. Também me pergunto, o que os policiais fizeram ao chegar em casa. Se eles tomaram um banho, comeram alguma coisa, esticaram as pernas no sofá e se pensaram pelo menos de relance, em quem era aquele jovem todo quebrado que eles desprezaram.
De todo modo, Rafael é mais um número na estatística; é mais um inquérito na Justiça; é mais uma história que logo logo, se repetirá em outra esquina de um Brasil acomodado.
(*) João Gabriel Bressan é jornalista
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